Etienne Decroux e a Mímica Corporal
Parte 1 - Introdução
A Mímica
Antes de começar...
A mímica, como a dança, é uma capacidade inerente ao ser humano, todos nascemos com essas duas potencialidades e a sua negação na fase adulta ocorre por bloqueios de ordem psicológica ou social, um exemplo claro disso são as crianças que naturalmente dançam ao escutar algum ritmo musical e não tem dificuldade de expressar suas vontades sem o uso das palavras.
Sendo a mímica e a dança elementos naturais ao espírito humano temos que diferenciar a “ação da dança/mímica” da dança/mímica como forma de expressão codificada ou gênero de manifestação artística e o dançarino/mímico que como “profissional” tem que passar por um estudo e treino rigoroso, aprendendo a ter um controle consciente de sua expressão física, dominando esta potencialidade natural e espontânea.
Breve história da Mímica
Os primeiros registros encontrados sobre a mímica ocidental como manifestação artística vêm da Grécia no ano 270A.C. pelo escritor grego Herondas, em seus espetáculos o ator/mímico realizava movimentos simbólicos ilustrando uma narração, acompanhado de musica e sons em uma espécie de dança simbólica.
Atravessando os tempos, a mímica ocidental continuou como ferramenta de discurso narrado, sempre se apresentando como uma dança abstrata ou reproduzindo símbolos, também como forma de suporte a expressão física de atores como na Commedia dell'Arte, como forma de amplificar a veracidade do discurso.
Na França no século XIX que a mímica passou a ter um gênero próprio: a pantomima. No ano de 1697, o rei Luis XIV baixou uma lei expulsando todos os atores italianos de paris e proibindo os que restaram na periferia de falar no palco, assim usando a criatividade para burlar esta lei absurda, no ano de 1700 nasce à pantomima muda. Esse novo gênero torna se popular e nascem diversas trupes se espalhando por toda a França, Inglaterra, Holanda, Alemanha, Áustria e Dinamarca.
Em 1716 o governo francês volta a liberar o uso da fala em todos os teatros, mas devido a seu grande sucesso a pantomima muda continua a ser apresentada assim mesmo, e fomenta o nascimento de um novo gênero da mistura entre a pantomima muda e o texto falado, o melodrama.
Um século depois do seu nascimento a pantomima muda caminhava para vias do esquecimento, e voltou a ganhar força quando Napoleão começou novamente a impor sanções e regras absurdas aos teatros na França.
Em 1819 aparece na cena Jean-Gaspard Deburau, conquista o publico como ator em pantomimas mudas, iniciando uma carreira de sucesso que sobrevive mesmo depois de cair às sanções de Napoleão aos teatros franceses, Deburau criou um estilo próprio e influenciou toda uma geração, mas infelizmente inspirado em seu sucesso apareceram uma cadeia de imitadores, que acabaram substituindo sua genialidade por meras cópias, levando a uma degradação progressiva deste gênero.
No final do século dezenove devido à dureza acadêmica na França o teatro e a dança estavam em um período de decadência, onde a vaidade dos artistas e a estética dos figurinos eram mais importantes do que a qualidade do interprete, a pantomima foi reduzida a expressão das mãos e do rosto devido a figurinos que não permitiam o movimento, a dança se transformou repetição de poses com um tronco que não se movia devido a o uso de corpetes e o teatro estava diminuído a exaltação do ego de celebridades do momento.
O momento era propicio a uma grande mudança, mas o fator que influencia a renovação nas artes vem de um novo espírito que aparece nas ciências, tecnologia e esportes, um novo paradigma começa a surgir na Europa, era o inicio da revolução industrial, um objetivismo purista guiava a uma busca a essência das coisas.
Parte 2 - O Vieux Colombier
Durante este período, no inicio do século XIX surge um escritor, editor e crítico teatral que com 33 anos e sem ainda nunca ter pisado em um palco decide aplicar suas idéias na prática com o intuito de salvar o teatro de sua decadência, se concentrando no treino físico e intelectual dos atores e eliminando do palco todos os elementos desnecessários.
Este homem foi Jacques Copeau, que em 1913 fundou em um local afastado do centro de Paris o teatro Vieux Colombier, de onde surgiram mudanças importantes, como a ênfase na formação dos atores e a modificação na formatação da sala de espetáculos, colocando a iluminação em refletores pendurados no teto, eliminando o fosso da orquestra aproximando o palco da platéia e colocando escadas ligando os dois.
Junto do teatro funcionava uma escola com formação eclética e forte influencia do teatro oriental, na escola do Vieux Colombier os alunos estudavam literatura, historia, locução, voz, confecção de adereços e um treino físico intenso com acrobacia, balé clássico, educação física, e treino com máscara, também conhecido como mímica corporal.
Parte 3 - A formação da Mímica Corporal
Os alunos do vieux colombier eram divididos entre dois grupos: A e B, o grupo A eram os alunos que buscavam seguir ou já seguiam carreira nas artes e no teatro como profissionais, o grupo B eram apenas curiosos ou pessoas sem pretensões de seguir carreira, as quais tinham outras profissões.
Etienne Decroux um aluno do grupo B, iniciou seus estudos em 1923, ao ver uma placa enquanto caminhava na rua, como era ligado a política e gostava muito de se envolver em discursos e discussões públicas resolveu fazer aulas de dicção.
Com então 25 anos, até então trabalhava em construções, mas também trabalhou como pedreiro, pintor, encanador, colocador de azulejos, açougueiro, estivador, reparador de carroças, lavrador, marinheiro, lavador de pratos e recepcionista em um hospital.
Decroux freqüentou o primeiro ano da Ecole du Vieux-Colombier dirigida pelo mesmo Jacques Copeau e em junho de 1924 assistiu uma apresentação de seus veteranos, chamada "A Máscara", na qual atores com os corpos quase nus atuavam com uma máscara inexpressiva sobre o rosto. Com o corpo eles representavam eventos dramáticos elementares, auxiliados por palmas com as mãos e pés, assim como sons vocais.
Ali nascera a mímica corporal, a mímica moderna.
“ sentado quieto entre os expectadores eu presenciei um espetáculo fabuloso.
Consistia em mímica e sons. Toda a performance aconteceu sem uma palavra sem maquiagem sem figurinos sem nenhum efeito de iluminação, sem cenários e nenhum outro acessório.
Os atores eram tão habilidosos que conseguiram condensar várias horas em alguns segundos e conseguiram agregar vários locais em apenas um. Simultaneamente sobre nossos olhos eles tivemos um campo de batalha, a vida ordinária o mar e a cidade.
Os personagens alternavam de um para outro com total veracidade.
A atuação foi emocionante e foi compreendida por uma beleza plástica e musical.”
(World on mime, decroux, PP. 4-5)
O treino com a máscara neutra era praticado por Copeau como estudo para atores do drama falado, este foi embrionário da Mímica Corporal de Decroux.
Esta apresentação dos alunos o impressionou tão profundamente que a partir daquele momento, Decroux passou para o grupo A, e iniciou uma sólida carreira como ator em drama falados, de 1925 até 1950.

